quinta-feira, 12 de julho de 2012

O alienista - resenha

Esta é uma obra de domínio público que está disponível na Internet no site: Google / http://www.uolbibivirtu.com.br, dividida em 13 capítulos.
O autor Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, onde faleceu em 29 de setembro de 1908. Seus livros são obras-primas que fogem a qualquer denominação de escola literária e que o tornaram o escritor maior das letras brasileiras e um dos maiores autores da literatura de língua portuguesa. É o fundador da Cadeira nº 23 da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a presidência por mais de dez anos.
A crônica  de Itaguaí conta que o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra, estudara em Coimbra e Pádua onde recusara o convite de Sua Majestade para ocupar altos cargos nos negócios da monarquia Portuguesa. Aos trinta e dois anos retornou ao Brasil visando dedicar-se inteiramente à ciência. Casou-se com uma viúva que não lhe deu filhos, e a falta deles o levou a mergulhar no trabalho. Como tinha muito prestígio na cidade, não foi difícil convencer os políticos a aprovar o projeto de uma clínica, para doentes mentais, subsidiada pelo governo. Nesta ele mantinha os alienados em clausura, para melhor estudá-los. Todos apresentavam, segundo o douto estudioso, algum desequilíbrio mental, e eram catalogados e devidamente separados por níveis de loucuras. Depois de algum tempo já havia na clínica por volta de quatro quintos dos habitantes da cidade. Todos, aterrorizados, achavam que havia uma certa falta de critério nas internações. O alienista via loucura em qualquer um que demonstrasse algum comportamento estranho para ele. A coisa caminhava de maneira tal que até sua esposa fora internada.
Liderada pelo barbeiro da cidade, a população rumou à Casa Verde, como era chamado o hospício, a fim de derrubá-la, mas o movimento logo foi rechaçado pela milícia  local. O saldo do confronto foi de muitos feridos e alguns mortos. Com o apoio das tropas da capital, o Dr. Bacamarte recolheu à clínica todos os revoltosos.
Mas, num belo dia, sem que ninguém entendesse, o Doutor deu alta para todos os internos. Ele justificou sua decisão dizendo que descobrira que os desequilibrados estavam de acordo com a natureza humana e internou os que se encontravam fora da clínica, ditos equilibrados. Diante do protesto desses outros, o alienista foi liberando-os, aos poucos, à medida que ia diagnosticando a cura, ou melhor o problema de cada um. Logo não havia ninguém na Casa Verde. O mais surpreendente é que depois de muito estudar o cérebro humano, o Doutor chegou à conclusão de que a única pessoa naquela cidade que apresentava uma patologia de insanidade, por não apresentar desequilíbrio algum, era ele mesmo. Sem hesitar, ele se internou e entregou-se à cura de si mesmo. Ele morreu dezessete meses depois, da mesma forma que entrou. Há quem diga que o único louco da cidade era ele mesmo. De qualquer forma efetuou-se  o enterro com muita pompa e rara solenidade.           
Nota-se que, é inerente ao ser humano ter algum tipo de desequilíbrio. Mas, o que é loucura? E quem é totalmente sano?  

JOSENILTON DE SOUSA E SILVA - acadêmico de direito da Faculdade UNAERP Guarujá.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

A Igreja do Diabo - resenha

Esta  obra é de domínio público e está disponível na Internet no site:  <file:///C/site/livros grátis/contos diversos.htm> - A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro. 
O autor Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, onde faleceu em 29 de setembro de 1908. Seus livros são obras-primas que fogem a qualquer denominação de escola literária e que o tornaram o escritor maior das letras brasileiras e um dos maiores autores da literatura de língua portuguesa. É o fundador da Cadeira nº 23 da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a presidência por mais de dez anos. 
Um velho manuscrito beneditino nos conta que, um dia, o Diabo resolveu fundar uma igreja. Não que precisasse disso, pois já tinha muitos adeptos remanescentes das seitas divinas, mas o que ele queria em sua vaidade, era acabar com todas elas de um só golpe. Convencido de seu sucesso foi falar com Deus, apenas para se vangloriar de sua ideia brilhante e empreendedora. Ele tinha uma tese segundo a qual as pessoas seriam como rainhas cujo manto de veludo eram arrematados com franjas de algodão, e assim, ao se puxar um fio do algodão, este se desenrolaria até chegar ao veludo. As virtudes dos homens seriam como o tecido fino e, suas faltas como as franjas de algodão que, ao se puxar o fio de uma, certamente se chegaria à outra. 
Depois do seu regozijo diante do Divino, o Demo foi colocar em prática a sua obra-prima. Era uma doutrina onde se negava tudo que era virtuoso, e se enaltecia os pecados já largamente praticados por seus velhos e novos discípulos. A luxúria e outros prazeres mundanos eram amplamente incentivados dentre os seus seguidores alienados. Todavia, algo começara a dar errado. Por essa o Pastor do Mal não esperava. O instinto humano de se insubordinar contra regras impostas estava surgindo no âmago de muitos fiéis. Às escondidas, avaros davam esmolas, criminosos salvavam vidas, mentirosos convictos diziam a verdade, além de outras benevolências repugnantes. Contrariado, o Coisa-Ruim foi se queixar com o Todo-Poderoso, expondo-lhe a sua aflição. Deus, do alto de sua sapiência, não tripudiou diante da decepção satânica como este o faria, mas limitou-se a lhe dizer: -- “Que queres tu meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de veludo, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana”. 
A obra do Grande Mestre nos retrata o quanto contraditória é a natureza humana. Não há Diabo que supere a astúcia, a perspicácia, e o instinto libertário que permeia o ser humano. É natural e salutar que o homem seja um eterno insubordinado. 

JOSENILTON DE SOUSA E SILVA - acadêmico de direito da Faculdade UNAERP Guarujá.


segunda-feira, 9 de julho de 2012

O MANDARIM resenha


           “O MANDARIM” é um conto que foi escrito por Eça de Queirós em 1880. Esta é uma obra de domínio público que é encontrada na Internet no Site http: // www.bibvirt.futuro.usp.br - A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro. 
        O escritor português Eça de Queiroz nasceu no século XIX, e morreu no início do século XX, deixando publicadas, além desta, muitas obras famosas como: O crime do Padre Amaro, O Primo Bazilio, A Relíquia, Os Maias, e mais uma dezena de obras póstumas, dentre elas uma parte da obra A Ilustre Casa de Ramires.
Dois amigos bebiam conhaque e conversavam sobre coisas diversas, quando um deles propôs um diálogo surpreendente e fantasioso. Teodoro era um funcionário do reino muito dedicado a seus afazeres. Ele tinha uma vida relativamente normal, como qualquer cidadão comum. Não era muito ambicioso, mas arriscava a sorte nas frações dos bilhetes de loteria. Seu passatempo predileto era ler velhos livros que comprava num sebo da cidade. Certa noite, folheando um exemplar intitulado “Brecha das Almas”, se deparou com uma inscrição onde dizia que ao se tocar uma certa campainha colocada ao lado deste, quem o fizesse, herdaria a fortuna de um mandarim da longínqua China. Por consequência, este morreria imediatamente onde estivesse. Ele desdenhou. Então surgiu diante dele a figura de um homem vestido de preto, que mais parecia o diabo, tentando persuadi-lo a tilintar. Mas ele não acreditava em diabo, nem tampouco em Deus, ele achava que Céu e Inferno eram concepções sociais para uso da plebe – e ele pertencia à classe média. Rezava, é verdade, à Nossa Senhora das Dores. Após alguma hesitação, ele decidiu tocar a tal sineta e, como nada de estranho aconteceu de imediato, foi dormir tranquilamenteUm mês depois, ele foi surpreendido por um mensageiro com um telegrama comunicando-lhe que recebera uma herança de um certo mandarim chinês. Ele ficara milionário. Entretanto, em posse e usufruto de sua fortuna, não se sentia feliz, pois era perseguido por visões e fantasmas do finado mandarim. Com muito remorso, Teodoro ficava imaginando como estaria a família do desafortunado defunto lá nos confins de Hong Kong. Sem demora, ele partiu para a China em busca dos deserdados, com o intuito de devolver-lhes a fortuna. Mas sua excursão foi vã, pois ele não os encontrou, sendo inclusive saqueado e aviltado por mongóis famintos, nas terras orientais. Desiludido, ele voltou para sua terra. Já de volta, cansado de falsas bajulações por causa de sua fortuna, ele decidiu não mais usá-la, deixando-a inerte num banco. Mas o problema dos fantasmas e visões não cessava. E agora, não ostentando mais a sua fortuna, as pessoas o chacoteavam chamando-o de fracassado. Então, de repente, ele resolveu usar novamente sua fortuna maldita. Nesta condição, a bajulação voltou como dantes por parte senhores da sociedade. Teodoro sentiu um extremo desprezo pela humanidade. E, desde então, passou a viver enfastiado “pensando na felicidade do não ser”. Numa certa noite, errante por uma rua deserta, deparou-se com aquela figura de preto e implorou de joelhos para que lhe restituísse “a paz da miséria”. A figura lhe disse que não seria possível livrá-lo desse castigo. Desiludido e sentindo que morria aos poucos, Teodoro resolveu fazer seu testamento, legando toda aquela nefasta fortuna ao demônio, para que repartisse entre os seus discípulos. E, mostrando total descrença na humanidade, ele finalmente suplica aos homens de bem para que não sejam ambiciosos e procurem obter suas fortunas por meios próprios. E, ainda mais, diz com suas palavras: “Só sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim!”
Esta obra nos faz refletir sobre o desejo humano de se obter fortunas fáceis e fúteis que certamente proporcionariam muito mais problemas do que felicidade.  



JOSENILTON DE SOUSA E SILVA - acadêmico de direito da Faculdade UNAERP Guarujá.

domingo, 8 de julho de 2012

A DEFESA - resenha

Obra de estréia do escritor contemporâneo D.W. Buffa, advogado, doutorado em ciência política pela Universidade de Chicago. Traduzida por Jaime Rodrigues e Gilson Soares, do original americano THE DEFENSEEDITORA RECORD - RJ - SP - 1999. 292 pg; 25 cap.
A trama começa quando o velho Juiz Leopold Rifkin pede para o seu grande amigo, o advogado criminal Joseph Antonelli, defender Jonny Morel, acusado de ter estuprado a enteada Michelle de 12 anos. Antonelli concordou em ajudar e conseguiu inocentar o réu valendo-se de que a acusação não tinha provas consistentes para incriminá-lo. Passados alguns anos, Morel foi morto com um tiro dentro de sua própria casa. As suspeitas recaíram sobre Denise que fugiu. Ela, por sua vez, procurou Antonelli para que a defendesse, mas ele recusou. Então, com outro procurador, Denise foi condenada e presa. Sua filha Michelle foi adotada pela família Walker, do Canadá, e nunca mais se soube dela.
Muito tempo depois, Antonelli soube por seu amigo, o promotor Horace Woolner, que Denise Morel fora encontrada morta no escritório do juiz Rifkim. A arma do crime estava ao lado dela. As suspeitas dessa vez recaíam sobre o Juiz Rifkim.
Diante disso, revelou-se que Rifkim acolhera Denise em sua casa quando ela ainda era uma mocinha. E ele mesmo revelou, que Denise o procurou tempos depois chantageando-o para que ajudasse o seu marido no caso do estupro. Diante da ameaça de ter revelado o caso que tiveram no passado, Rifkim procurou Antonelli para defender Morel.
Joseph, agora,  teria que defender o seu amigo dessa acusação de assassinato. Alexandra, sua namorada e estagiária, levantou uma tese em que a autoria desse crime, bem como do assassinato de Jonny Morel poderia ser atribuida a Michelle Walker. Esta tinha todos os motivos para fazê-lo, por ter sido maltratada e injustiçada no passado. Mas niguém sabia do seu paradeiro, só que havia se formado com méritos na Universidade do Canadá.
No julgamento do Juiz Rifkim, Antonelli pagou para um marginal mentir em juizo. E, suscitando uma dúvida razoável na acusação, Leopold foi inocentado. Dois dias depois, o Juiz Leopold Rifkim foi encontrado morto em seu escritório ao lado de um copo com veneno misturado ao vinho e um bilhete que dizia: “Sou responsável por tudo que aconteceu”.
Alexandra não quis ir ao funeral. Quando Antonelli voltou deste, descobriu que ela havia partido sem maiores explicações.
Após a morte de Leopold e a partida de Alexandra, Joseph se trancou por vários dias em casa, até que o agora juiz Horace Woolner foi visitá-lo. Então Antonelli lhe revelou o que havia descoberto, que Michelle Walker, na verdade, era Alexandra, sua namorada. Ela havia planejado meticulosamente sua vingança, para que soubessem como era se sentir desamparada e traída por alguém que confiava. Antonelli decidiu nada fazer a respeito disso, já que seu amigo Rifkim tudo havia feito para protegê-la.
Já de saída, Horace Woolner disse a Antonelli que o real motivo de tê-lo procurado naquele dia, era para que ele assumisse um caso muito complicado. Tratava-se de uma menina de dezesseis anos que matara seu pai. Ela vinha sendo abusada sexualmente por ele desde os seis anos de idade. Antes que pudesse responder, Horace lhe disse que a citação seria no dia seguinte às dez horas. Joseph ficou ali parado, pensando em Alexandra, duvidando se um dia ela voltaria. Ligou a televisão, tomou um café e ficou assistindo um filme em preto e branco.             
          A DEFESA, é uma obra excitante que consegue remeter o leitor ao ambiente dos fatos, prendendo-o à leitura e incitando-o a chegar ao final da trama de uma só vez. Fala sobre uma sequência de crimes que culmina com um final surpreendente, inesperado. Sem dúvida, um dos melhores livros que tive a oportunidade de ler.

(JOSENILTON DE SOUSA E SILVA - Trabalho acadêmico - Direito - UNAERP/Guarujá - 2005)

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO resenha

 Obra escrita em 1932 por Aldous Huxley. Trata-se de uma antevisão de um mundo tecnológico onde as pessoas são produzidas em laboratórios e em escala industrial. Foi traduzida  por Lino Vallandro e Vidal Serrano, do original inglês Brawe New World. São 314 páginas, em XVIII capítulos.
Aldous Huxley nasceu na Inglaterra em 26 de junho de 1894 e faleceu nos Estados Unidos em 22 de novembro de 1932.
No ano de 632(depois de Ford), a “Civilização” era uma sociedade onde imperava a impessoalidade. Através de um processo chamado Bocanowski se podia produzir, de um mesmo ovário, noventa e seis gêmeos idênticos. As pessoas eram condicionadas a aceitar suas realidades com satisfação. Esteticamente elas não envelheciam, e nem tampouco adoeciam, pois valiam-se de drogas. Não haviam lares nem famílias. Tudo era descartável, até as pessoas. Os corpos eram cremados e reciclados para a obtenção de elementos químicos.
Bernard Marx, do gabinete de psicologia, resolveu viajar com Lenina Crowne para uma reserva no Novo México chamada; Vale de Malpaís. Era um lugar onde o regime totalitário não alcançava, era cercado de telas metálicas eletrificadas donde não se podia escapar jamais. Lá, encontraram um povo totalmente diferente do que conheciam, onde se cultuava tradições, rituais e deuses. Bernard encontrou um rapaz muito peculiar que se vestia e vivia como um índio, mas que tinha os olhos e cabelos claros, e que , também, falava a sua língua.  A mãe dele viera de fora da reserva em uma excursão e se perdera do seu acompanhante, ficando grávida e entregue à própria sorte. Por se comportar de forma diferente, Linda e seu filho John foram repudiados pelos locais. O Selvagem, como ficou conhecido, e sua mãe aceitaram o convite de Bernard para irem à civilização. Para conseguir a permissão para levá-los, Marx alegou se tratar de um experimento científico comportamental.
Durante o tempo que viveu na cidade, o Selvagem,  não teve um só minuto de paz. E, após a morte de sua mãe, John passou a agredir as pessoas e a incitá-los a não tomarem as drogas que lhes davam. Por ser responsável pelo suposto baderneiro, Bernard foi punido pelos seus superiores com a pena de transferência para o Alasca. Com os poderosos no seu encalço, o Selvagem fugiu e se escondeu em um longínquo um farol abandonado. Por acaso, foi descoberto por algumas pessoas aventureiras que exploravam o local, e logo havia centenas de repórteres a importuná-lo. John os repeliu com violência, mas vieram muitos outros. Por algum tempo eles o deixavam em paz, mas logo voltaram em maior número. E a multidão delirante gritava pedindo para que o Selvagem aparecesse e se flagelasse diante deles. Entretanto, numa manhã, o que encontraram foi um homem pendurado pelo pescoço num dos arcos da escada do sótão.
Este romance escrito a tanto tempo permanece muito atual, e agora mais do que nunca com a discussão sobre a clonagem de seres vivos. Por que não acreditar que se possa clonar até seres humanos?
(JOSENILTON DE SOUSA E SILVA - Trabalho acadêmico - Direito UNAERP/Guarujá)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O LIVRO DE RUTE resenha

O Livro de Rute é o oitavo livro do velho testamento da Bíblia Sagrada. O escrito está entre o livro dos Juízes e o primeiro livro de Samuel. 
A Bíblia é uma compilação de vários autores que eram os escribas da época. É composta por 39 livros do velho testamento, (a.C.), e por 28 livros do novo testamento (d.C.). A obra estudada contém 334 páginas - Traduzida da versão inglesa de 1984 - revisada e publicada em 1986 pela editora NOVO MUNDO DAS ESCRITURAS SAGRADAS.
Rute era uma moabita que se casara com Malon, filho do cananeu-levita Elimeleque. Este estivera a peregrinar pelas terras de Moabe, com sua esposa Noemi e seus filhos, fugindo da fome que assolara a Canaã. E morreu Elimeleque marido de Noemi deixando-a com seu dois filhos; Malom e Quiliom, que tomaram para si mulheres moabitas. Estas eram Rute e Orfa, e ficaram ali por mais de doze anos. E morreram, também, Malom e Quiliom, ficando Noemi com suas duas noras, todas desamparadas de seus maridos. Então, Noemi aconselhou-as para que voltassem às suas respectivas mães em Moabe, pois não poderia ter mais filhos para se casar com elas, conforme era o costume. Ao contrário de Orfa, que voltou para os seus, Rute não quis abandonar sua sogra e seguiu com ela para Israel. Esta atitude gerou grande contentamento entre o povo de Belém. E todos a aceitaram como parte da família levita, e também passaram a admirá-lá por sua lealdade e benevolência. Nas terras de Canaã, para prover o seu sustento e de sua sogra, Rute passou a trabalhar na colheita de grãos. Foi nesses campos que ela conheceu a Boaz, por quem se apaixonou e foi correspondida. Boaz, que era o dono da plantação, era da geração de Elimeleque, seu finado sogro, e poderia remir as terras que Noemi vendera em Moabe e que pertencera a seu marido e filhos. Então, Boaz arrematou essas terras dos Moabitas.
Em Israel, ao celebrar-se um contrato, e para que fosse confirmado todo negócio, eram escolhidos dentre os anciãos da cidade, dez daqueles mais ilibados para que mediassem, as questões contratuais. No ato da transação o contratante descalçava  seu sapato e dava-o à outra parte por testemunho. E assim foi feito. Havia, também, um costume segundo o qual quando um homem morria sem ter tido filhos, o seu irmão era obrigado a tomar a viúva daquele por esposa. E o primogênito dessa relação seria do finado, para que fosse suscitado o nome do defunto dentre os seus.
Embora não fosse irmão de Malom, e sim o seu tio, Boaz tomou a Rute por mulher e esta foi morar na casa dele. Mais tarde Rute concebeu a um filho que se chamou Obede. Este seria o pai de Jessé, pai de Davi. E o nome de Malom foi suscitado em sua família. Então, Noemi que outrora ficara desamparada, agora voltara a ter guarida junto à sua nora. E o pequeno Obede era, indiretamente, e legalmente,  o seu neto, de quem fora a sua ama e dele teve conservada a sua velhice. 
O livro de Rute é uma escritura que mostra como a benevolência e lealdade de uma nora para com sua sogra, acabou por beneficiar a ambas. A obra, também, aborda a parte jurídica dos contratos celebrados, tal como era  o costume daquela época. Mostra, também, que o sentido de moral, para cada povo em determinada época, pode ser muito diverso. A poligamia, por exemplo, era um comportamento normal para aquelas pessoas. A forma e o vocabulário empregado no texto bíblico são peculiares, o que obriga o leitor a ter uma atenção especial. Outrossim, as primeiras escrituras foram feitas em hebraico-aramaico, e foram traduzidas para o grego e o latim e posteriormente para o inglês e outras, o que gerou muita distorção do texto original.  

 JOSENILTON DE SOUSA E SILVA - acadêmico de direito da Faculdade UNAERP Guarujá.
     

SABER CUIDAR resenha


           A sociedade contemporânea, chamada sociedade do conhecimento e da comunicação, está criando, contraditoriamente, cada vez mais incomunicação e solidão entre as pessoas. A Internet pode conectar-nos com milhões de pessoas sem precisarmos encontrar alguém. Pode-se comprar, pagar as contas, trabalhar, pedir comida, assistir a um filme sem falar com ninguém. Para viajar, conhecer países, visitar pinacotecas não precisamos sair de casa. Tudo vem à nossa casa via on line.
A relação com a realidade concreta, com seus cheiros, cores, frios, calores, pesos, resistências e contradições é mediada pela imagem virtual que é somente imagem. O pé não sente mais o macio da grama verde. A mão não pega mais um punhado de terra escura, O mundo virtual criou um novo habitat para o ser humano, caracterizado pelo encapsulamento sobre si mesmo e pela falta do toque, do tato e do contato humano.  
        Essa anti-realidade afeta a vida humana naquilo que ela possui de mais fundamental: o cuidado e a compaixão. Mitos antigos e pensadores contemporâneos dos mais profundos nos ensinam que a essência humana não se encontra tanto na inteligência, na liberdade ou na criatividade, mas basicamente no cuidado. O cuidado é, na verdade, o suporte real da criatividade, da liberdade e da inteligência. No cuidado se encontra o ethos* fundamental do humano. Quer dizer, no cuidado identificamos os princípios, os valores e as atitudes que fazem da vida um bem-viver e das ações um reto agir.
        O tipo de sociedade do conhecimento e da comunicação que te­mos desenvolvido nas últimas décadas ameaça a essência humana. Porventura, não descartou as pessoas concretas com as feições de seus rostos, com o desenho de suas mãos, com a irradiação de sua presença, com suas biografias marcadas por buscas, lutas, perplexidades, fracassos e conquistas? Não colocou sob suspeita e até difamou como obstáculo ao conhecimento objetivo, o cuidado, a sensibilidade e o enternecimento, realidades tão necessárias sem as quais ninguém vive e sobrevive com sentido? Na medida em que avança tecnologicamente na produção e serviço de bens materiais, será que não produz mais empobrecidos e excluídos, quase dois terços da humanidade, condenados a morrer antes do tempo?
        Nossa meditação procura denunciar semelhante desvio. Ousamos apresentar caminhos de cura e de resgate da essência humana, que passam todos pelo cuidado.
       Alimentamos a profunda convicção de que o cuidado, pelo fato de ser essencial, não pode ser suprimido nem descartado. Ele se vinga e irrompe sempre em algumas brechas da vida. Se assim não fosse, repetimos, não seria essencial. Onde o cuidado aparece em nossa sociedade? Em algo muito vulgar, quase ridículo, mas extremamente indicativo: no tamagochi.
        O que é o tamagochi? É uma invenção japonesa dos inícios de 1997. Um chaveirinho eletrônico, com três botões abaixo da telinha de cristal, que alberga dentro de si um bichinho de estimação virtual.
        O bichinho tem fome, come, dorme, cresce, brinca, chora, fica doente e pode morrer. Tudo depende do cuidado que recebe ou não de seu dono ou dona.
        O tamagochi dá muito trabalho. Como uma criança, a todo momento deve ser cuidado; caso contrário, reclama com seu bip; se não for atendido, corre risco. E quem é tão sem coração a ponto de deixar um bichinho de estimação morrer?
            O brinquedo transformou-se numa mania e tem mudado a ro­tina de muitas crianças,jovens e adultos que se empenham em cuidar do tamagochi, dar-lhe de comer, deixá-lo descansar e fazê-lo dormir. O cuidado faz até o milagre de ressuscitá-lo, caso tenha morrido por falta de atenção e de cuidado.
        Bem disse um perspicaz cronista carioca: “solidão, seu codinome é tamagochi”. O cuidado pelo bichinho de estimação virtual denuncia a solidão em que vive o homem/a mulher da sociedade da comunicação nascente. Mas anuncia também que, apesar da desumanização de grande parte de nossa cultura, a essência humana não se perdeu. Ela está aí na forma do cuidado, transferido para um aparelhinho eletrônico, ao invés de ser investido nas pessoas concretas à nossa volta: na vovó doente, num colega de escola deficiente físico, num menino ou menina de rua, no velhinho que vende o pão matinal, nos pobres e marginalizados de nossas cidades ou até mesmo num bichinho vivo de estimação qual seja um hamster, um papagaio, um gato ou um cachorro.
         O cuidado serve de crítica à nossa civilização agonizante e também de princípio inspirador de um novo paradigma de convivialidade.
         Sonhamos com um mundo ainda por vir, onde não vamos mais precisar de aparelhos eletrônicos com seres virtuais para superar nossa solidão e realizar nossa essência humana de cuidado e de gentileza. Sonhamos com uma sociedade mundializada, na grande casa comum, a Terra, onde os valores estruturantes se construirão ao redor do cuidado com as pessoas, sobretudo com os diferentes culturalmente, com os penalizados pela natureza ou pela história, cuidado com os espoliados e excluídos, as crianças, os velhos, os moribundos, cuidado com as plantas, os animais, as paisagens queridas e especial­mente cuidado com a nossa grande e generosa Mãe, a Terra. Sonha­mos com o cuidado assumido como o ethos, fundamental do humano e como compaixão imprescindível para com todos os seres da criação.
            A categoria cuidado se mostrou chave decifradora da essência humana. O ser humano possui transcendência e por isso viola todos os tabus, ultrapassa todas as barreiras e se contenta apenas com o infinito. Ele possui algo de Júpiter dentro de si; não sem razão recebeu dele o espírito.
        O ser humano possui imanência e por isso se encontra situado num planeta, enraizado num local e plasmado dentro das possibilidades do espaço-tempo. Ele tem algo da Tellus/Terra dentro de si; é feito de húmus, donde se deriva a palavra homem.
        O ser humano se encontra sob a regência do tempo. Este não significa um puro correr, vazio de conteúdos. O tempo é histórico, feito pela saga do universo, pela prática humana, especialmente pela luta dos oprimidos buscando sua vida e libertação. Ele se constrói passo a passo, por isso sempre concreto, concretíssimo. Mas simultaneamente o tempo implica um horizonte utópico, promessa de uma plenitude futura para o ser humano, para os excluídos e para o cosmos. Somente buscando o impossível, consegue-se realizar o possível. Em razão dessa dinâmica, o ser humano possui algo de Saturno, senhor do tempo e da utopia.
         Mas não basta dizer tais determinações. Elas, na verdade, dilaceram o ser humano. Colocam-no distendido e crucificado entre o céu e a terra, entre o presente e o futuro, entre a injustiça e a luta pela liberdade.
         Que alquimia forjará o elo entre Júpiter, Tellus/Terra e Saturno? Que energia articulará a transcendência e a imanência, a história e a utopia, a luta pela justiça e a paz para que construam o humano plenamente?
         A fábula-mito de Higino nos transmite a sabedoria ancestral: é o cuidado que enlaça todas as coisas; é o cuidado que traz o céu para dentro da terra e coloca a terra para dentro do céu; é o cuidado que fornece o elo de passagem da transcendência para a imanência, da imanência para a transcendência e da história para a utopia. É o cuidado que confere força para buscar a paz no meio dos conflitos de toda ordem. Sem o cuidado que resgata a dignidade da humanidade condenada à exclusão, não se inaugurará um novo paradigma de convivência.
        O cuidado é anterior ao espírito (Júpiter) e ao corpo (Tellus). O espírito se humaniza e o corpo se vivifica quando são moldados pelo cuidado. Caso contrário, o espírito se perde nas abstrações e o corpo se confunde com a matéria informe. O cuidado faz com que o espírito dê forma a um corpo concreto, dentro do tempo, aberto à história e dimensionado para a utopia (Saturno). É o cuidado que permite a revolução da ternura ao priorizar o social sobre o individual e ao orientar o desenvolvimento para a melhoria da qualidade de vida dos humanos e de outros organismos vivos. O cuidado faz surgir o ser humano complexo, sensível, solidário, cordial, e conectado com tudo e com todos no universo.
        O cuidado imprimiu sua marca registrada em cada porção, em cada dimensão e em cada dobra escondida do ser humano. Sem o cuidado o humano se faria inumano.
         Tudo o que vive precisa ser alimentado. Assim o cuidado, a essência da vida humana, precisa também ser continuamente alimentado. As ressonâncias do cuidado são sua manifestação concreta nas várias vertebrações da existência e, ao mesmo tempo, seu alimento indispensável. O cuidado vive do amor primal, da ternura, da carícia, da compaixão, da convivialidade, da medida justa em todas as coisas. Sem cuidado, o ser humano, como um tamagochi, definha e morre.
         Hoje, na crise do projeto humano, sentimos a falta clamorosa de cuidado em toda parte. Suas ressonâncias negativas se mostram pela má qualidade de vida, pela penalização da maioria empobrecida da humanidade, pela degradação ecológica e pela exaltação exacerbada da violência.
         Não busquemos o caminho da cura fora do ser humano. O ethos está no próprio ser humano, entendido em sua plenitude que inclui o infinito. Ele precisa voltar-se sobre si mesmo e redescobrir sua essência que se encontra no cuidado.
         Que o cuidado aflore em todos os âmbitos, que penetre na atmosfera humana e que prevaleça em todas as relações! O cuidado salvará a vida, fará justiça ao empobrecido e resgatará a Terra como pátria e mátria de todos.
          Em todas as relações, "o cuidado" se opõe ao descuido, como diz Boff: "o cuidar é mais que um ato, é uma atitude, é uma fonte que gera muitos atos".
 É nesta atitude a que se refere Boff que a todo instante somos surpreendidos com um novo modo de ser, antes oculto, inexpressivo por, quem sabe, estarmos aturdidos, voltados às pressões externas de curta sustentação que não nos estimulam a voltarmos para dentro de nós.
Posso concluir que o cuidar é um exercício constante de amor e compaixão, sem o qual nos tornamos uma mera executiva de normas pré-estabelecidas, que nos orientam, sem dúvida, porém são insuficientes quando diante dos enigmas do ser humano.
          Esta obra nos remete a uma visão que faz muito sentido. Se não cuidarmos dos nossos, tendemos a nos deteriorar, interior e exteriormente, material e espiritualmente. O ser humano, assim como o planeta, é comparável a uma máquina que precisa ser azeitada e reapertada constantemente para que funcione bem.

Fontes bibliográficas:
BOFF, L. Saber Cuidar: ética do humano-compaixão pela terra. 10ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.

JOSENILTON DE SOUSA E SILVA - acadêmico de direito da Faculdade UNAERP Guarujá.